O impacto da guerra no bolso dos consumidores

Por Felipe Borba, assessor de investimentos da RP Capital

Os efeitos da guerra dos Estados Unidos e Israel com o Irã, além de causar incertezas sobre o futuro, já geram impactos que afetam diretamente o bolso dos consumidores. Nos últimos dias, o noticiário foi inundado por gráficos, índices da bolsa e termos como “juros futuros” e “variação cambial”. Para quem não vive no mercado financeiro, esses jargões parecem distantes, mas a realidade é que eles batem à nossa porta toda vez que passamos o cartão no supermercado ou paramos no posto de gasolina.

A recente escalada de conflitos internacionais não é apenas um acontecimento geopolítico, é um evento econômico que afeta o mundo todo e que pode drenar o poder de compra do brasileiro, já que o conflito tem poder de impactar os preços dos combustíveis, dos fretes, dos alimentos e, consequentemente, o dólar, os juros e a inflação.

Petróleo dispara e afeta o frete

O primeiro e mais visível impacto vem das refinarias. Com a guerra, o preço do barril de petróleo disparou, saindo da casa dos 70 para mais de 100 dólares. Como o Brasil não é autossuficiente no refino, o processo que transforma o óleo bruto em combustível, ficamos expostos aos preços mundiais.

Embora o governo tenha tentado segurar os preços por meio de subsídios e zerando impostos como PIS/Cofins, a pressão tem sido insustentável. O resultado é que já temos diesel vendido a quase R$ 9 em algumas regiões e já são relatados alguns casos de falta do produto. O combustível move os caminhões que trazem a comida para a nossa mesa e os ônibus que levam o trabalhador ao trabalho. Quando o diesel sobe, tudo o que depende de transporte, ou seja, quase tudo, sobe junto. E isso afeta diretamente a inflação.

O Relatório Focus divulgado nesta segunda-feira (16) pelo Banco Central do Brasil apontou estimativas de crescimento para a inflação e Selic. A projeção para o IPCA em 2026 subiu para 4,10%. A estimativa na semana passada era de 3,91%.

Juros: promessa adiada

A taxa de juros é outro ponto crucial que o cidadão sente no bolso quando enfrentamos momentos de instabilidade. Até pouco tempo, a expectativa era de que o Banco Central começasse a baixar a Selic de forma mais robusta, o que tornaria empréstimos, financiamentos de imóveis e compras parceladas mais baratos.

No entanto, com o aumento da inflação causado pelos combustíveis, essa queda nos juros será feita de forma mais ponderada. O Relatório Focus desta semana projeta a taxa Selic a 12,25% ao ano, ante 12,13% na semana anterior. Para o brasileiro que planejava financiar a casa própria ou trocar de carro, isso significa parcelas mais altas e um crédito mais restrito. É o freio de mão puxado na economia doméstica.

Em relação ao mercado de juros futuros, que são as taxas em contratos de Depósito Interfinanceiro (DI), as incertezas geradas pelo conflito fazem os investidores exigirem juros maiores para continuarem aportando recursos em mercados emergentes. Assim, para evitar a fuga de capital, as projeções são de alta para os juros futuros.

O dólar e a bolsa

A bolsa de valores, que vinha em uma trajetória de alta, recuou para a casa dos 170 mil pontos. Investidores, com medo da incerteza, tendem a fugir de países emergentes como o Brasil em busca de segurança. Esse movimento faz o dólar oscilar. Embora o Brasil seja um grande exportador de petróleo, o que ajuda a trazer dólares para o país e segurar a cotação, a instabilidade global mantém a moeda americana em patamares que encarecem insumos agrícolas e eletrônicos.

O risco diplomático

A guerra impõe um cenário diplomático complicado para o Brasil no mundo da geopolítica e dos negócios. Ao mesmo tempo em que o país tem a necessidade de manter uma relação positiva com os EUA, por conta de negociações tarifárias, o Brasil já demonstrou solidariedade ao Irã, país membro dos Brics. No mundo dos negócios, as posições diplomáticas podem custar caro em termos de parcerias e investimentos estrangeiros.

Cautela diante da imprevisibilidade

Em suma, o cenário atual reforça que o mercado vive um momento de extrema volatilidade, no qual a cada novo desdobramento do conflito internacional, as projeções para a nossa economia são recalculadas. Como vimos, o aumento expressivo do petróleo para além dos 100 dólares e a pressão sobre o diesel já impactam a inflação, elevando a expectativa do IPCA para 2026

Diante dessa imprevisibilidade, que força mais ponderação na queda da Selic e mantém o dólar instável, a cautela deve ser a palavra de ordem para o consumidor brasileiro. É um momento de vigilância sobre o orçamento doméstico e prudência com o crédito, já que as ondas de choque dessa guerra geopolítica atingem, sem pedir licença, desde o preço do frete até a prateleira do supermercado.

 

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